Namorados
 

"Mocidade, és relâmpago ao pé da eternidade". Guilherme de Almeida.


Nem sempre a idade significa mais vivência, haverá moços e moças que usufruem a vida, desfrutam, sentem-na em toda sua plenitude, amam-se por mais amar, eternos namorados.


A palavra namorado tornou-se um eufemismo para algumas mulheres que foram casadas, separaram-se e, já no terceiro, quarto homem, referem-se a ele como namorado, melhor seria amigo. Evolução de conceitos, diz Carlos Drummond de Andrade, quando se refere a uma de suas conhecidas, a quem lhe perguntaram se era casada: - Não, mas de vez em quando dou as minhas casadinhas.


Como queiram aquelas mulheres, mas não é este o namorado, falo dos moços e moças que se dão em amor de verdade, carinho e ternura, jovialidade sobrando, lábios enfeitados de sorrisos, trocando rosas à  moda antiga e bilhetes de amor pela internet, românticos, apaixonados.


No meu tempo não existia o dia dos namorados, todas as noites eram delas. A essência das moças é a mesma, um só coração, porém, as de hoje se relacionam com mais liberdade, desapareceram alguns tabus. A diferença dos tempos está nas novelas, nos Big Brother, que dão aulas de prostituição à s mocinhas e estimulam mulheres à  traição.


Contrastando-se a estas cenas, certa vez, vi passar pela frente de casa um casal de velhos com mãos dadas, verdadeiro amor, como disse o poeta. Mas o amor não tem idade, nasce na barriga da mãe, cresce no lar e se esparrama pelo mundo no coração dos namorados.


Para falar deles, rebusco papéis guardados, bilhetes, cartas...


- Manhã muito quente, chispas de sol me fazem lembrá-la no ardor dos anos, mocidade exuberante, calada, simples, beleza rara de menina-moça. Hoje, "a tua beleza para mim está em existires."


E vou folhando outros, um correio-elegante, entre aspas:


"Levanta os olhos do chão. Que podes ganhar assim? Se Deus nos fez um pro outro, Para que foges de mim?!" E as folhas se deslizam pelos dedos, esta caiu no chão:


- Vagueio pelas ondas da música que me faz te lembrar, não me dou conta das horas, dias e noites, enleios de saudade, cheiro das rosas que me deste. E quando te aproximas, me avermelha o rosto, sinto as caricias do teu olhar, mãos que me afagam, o tempo passa rápido e te vejo ir embora, então, olho-me na tristeza dos versos e poemas de Florbela Espanca.


E naquela quermesse na igreja da Vila Xavier, ao som da orquestra do Mantovani (Canelinha), de um lado, e do outro, Francisco Canaro, ela não resistiu ao ver o marido que a deixara, e enviou-lhe este correio-elegante:


- Tu que me dizias ter amor, por onde andas, que não te vejo e sinto? Acaso ignoras o meu endereço?Ainda moro na Rua da Saudade, que é a nossa, o mesmo número!


Memórias do tempo que não volta mais. Ah se pudesse! Namorados, amem-se a não mais poder, "o amor na areia sôlta da vida brota roseiras em flor"!


Pedro Mercadante Leite do Canto