Homenagem do Leitor - Luiz Mercadante (Gigio) |
A vida é um punhado infantil de areia ressequida, um som de água ou de bronze e uma
sombra que passa. Fernando Pessoa Aconteceu no dia primeiro de junho de 2010, tristeza, saudade do meu primo Gigio. A ultima vez que conversamos foi no seu aniversário, 9 de março.O jeito de sempre: alegre, brincalhão, estava tudo bem em casa, doencinha, nada que comprometesse, sem prognóstico, sem aviso, e ele foi embora antes do tempo! Italianão, protótipo dos Mercadante, a cara do pai, meu tio Totô, Salvador Mercadante; o Gigio se enquadrava no brasão de Mineiros do Tietê: Virtus ex honore. Falar dos que se foram é uma maneira de orar por eles. Dizem que Deus chama os bons para ficar rodeado deles, cada um por sua vez. E os maus continuam e o mundo fica desencontrado: bandidos, mães megeras assassinas, casamentos transformados em túmulos do amor, pedófilos, traficantes... Desígnios dos homens. Mineiros perde uma raiz, essência pura dos Mercadante, vindos da longínqua Itália, do nosso avô Pedro Mercadante, produtor e comprador de café, estabelecido no comércio, Casa Mercadante, fundada em 1883, também instalada em Mineiros, na Rua 27 de Agosto, em frente o número 536. Ausência sentida, carregada de boas lembranças. Anos atrás passamos uns dias no seu sítio, nossos meninos eram pequenos. Tinha um retiro de leite com vacas selecionadas, fazia saborosos queijos, vendidos e entregues pela mãe dos seus filhinhos. O Gigio gostava de um bom conhaque francês, Napoleon, Martell, aprendi com ele, aos goles, garrafas adornadas, bonitas e bem caras. De tardezinha, alguns amigos compareciam para dar umas bicadas, o Gigio não conseguia vencê-los, foi indo até que resolveu encher as lindas garrafas com conhaque Presidente ou outro nacional, e eles estalavam a língua, e o Gigio dava aquele sorriso de menino travesso; numa destas tardes eu estava lá e dei muita risada. Senti não me despedir de você, só me comunicaram 20 dias depois. Chorei em cima do Jornal Nossa Terra. Em maio de 79 o Gigio veio para Assis no enterro do meu irmão Erasmo. Eram amicíssimos desde os velhos tempos de São Paulo, onde, todas as tardes se encontravam com mais amigos no bar grã-fino do Términus Hotel, na Avenida Ipiranga, perto do famoso Bar Brahma. Elegante, bonitão, barba azulada, corado, cabelo ao tipo italiano, o Gigio era festa para os olhos das meninas. Pessoas queridas estão sepultadas em Mineiros: meus tios Totô, Vicente, Nina, vó Rosa, a prima Letícia e agora o Gigio. Inevitável, como está nas palavras do cemitério da cidade Eu fui o que tu és, tu serás o que eu sou Igual ao de Turim, na Itália: Hodie mihi, cras tibi Hoje eu, amanhã você. E me vem a lembrança, faz 60 anos que Salvador Mercadante faleceu em São Paulo, no dia 2 de fevereiro de 1950. Viemos todos de trem, saindo de São Paulo, na chegada a Mineiros, de noite, assisti a um espetáculo que me comove até hoje: beirando a linha do trem e nas ruas o povo de Mineiros com velas acesas, mulheres gritavam à s lágrimas, já na estação ouvi uma senhora falar: - Foi embora o pai dos pobres. Luiz Mercadante, meu querido primo Gigio, deixo-lhe as palavras de Guimarães Rosa, quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, referindo-se a um homem ilustre já falecido: - As pessoas não morrem, elas ficam encantadas. Pedro Mercadante Leite do Canto Assis |